Crônica. A Louca.

A Louca.


Pensei em vários títulos para essa história, e depois de lerem o que vou contar vão concordar comigo.
O dia prometia transcorrer normalmente, acordar num dia de férias, visitar minha mãe e me despedir de minha irmã que retornaria de sua viagem de férias, brincar com minha sobrinha de lindos olhos azuis, comer bolo com café... Porém, ver uma louca se jogar do quarto andar de um apart-hotel, definitivamente não estava nos meus planos.
Ao atravessar a última esquina que levaria ao prédio de minha mãe, uns gritos que vinham do apart-hotel à minha direita me chamou a atenção e quando olhei na direção e me deparei com uma mulher de calcinha preta e camiseta vermelha se lançando sobre a pequena sacada do apartamento, me senti como se assistindo a um filme. Cobri os olhos para não ver o que eu realmente via, uma louca se lançando sobre a sacada e mudando de idéia na metade do caminho e agarrando o parapeito da sacada para não cair.
Numa questão de segundos, pensei na minha covardia em não querer olhar e, quem sabe, poder ajudar aquela louca a mudar de idéia. Voltei meu olhar para a louca pendurada na sacada e lá de dentro do apartamento saiu um homem que rapidamente a agarrou pelos braços. Ela ficou lá, tentando apoiar as pernas em algo e gritando não sei o que.
Começou a juntar gente, eu olhava para a louca pendurada, olhava para baixo onde ela provavelmente cairia, olhava para o homem que tentava segurá-la, olhava para um senhor que surgiu no segundo andar e ficou a olhar a multidão que se formava e comecei a gritar para ele que chamasse a polícia.
Vi quando o porteiro do aparte-hotel saiu correndo em direção à portaria, vi quando o homem que segurava a louca pediu que ela tivesse calma, vi quando um senhor de terno azul escuro parou do meu lado com seu celular na mão e vi quando alguns carros pararam na esquina e de dentro deles saíram seus motoristas pra ver o que estava acontecendo ali.
Eu continuava gritando para o senhor no segundo andar para que chamasse a polícia, mas a sensação que eu tinha era de que ninguém me ouvia... e a louca continuava pendurada...
O senhor de terno azul marinho que estava parado do meu lado, muito calmamente, me perguntou se o número do bombeiro era 193. Eu olhei para ele e me dei em conta que meu celular estava no bolso de minha calça preta. Ao alcançá-lo, tentei ligar 190, mas eu não me concentrava no teclado e disquei 199. Cancelei a discagem, olhei novamente em direção à louca dependurada na sacada do quarto andar e percebi que o homem que a agarrava pelos braços estava obtendo sucesso em puxá-la para cima e para dentro. Mais uma vez eu tentei discar 190 e quando no meu celular acusou “chamando”, o homem conseguiu salvar a louca de sua queda mortal.
Puxa, que alívio! Cancelei a ligação para a polícia.
O senhor de terno azul marinho do meu lado murmurou algo que eu não entendi e seguiu o seu caminho, as pessoas que haviam saído de seus carros para ver a louca cair também seguiram seus caminhos, a multidão que se formara na frente do aparte-hotel se dispersou e eu fiquei ali parada por mais alguns instantes, para ver se alguém apareceria na sacada do quarto andar pra dizer que estava tudo bem, mas o homem e a louca sumiram lá para dentro.
Devolvi meu celular para o meu bolso e disse para mim mesma: “que louca”.
Voltei a caminhar na direção do prédio de minha mãe que se encontrava há alguns metros e meus pensamentos ferviam. O que poderia ter levado aquela louca a tentar se matar? Sim, porque foi exatamente o que ela fez, ela se jogou lá de cima, mas um milésimo de segundo de bom senso a fez mudar de idéia e se agarrar no parapeito. Seria desespero por um amor não correspondido? Seria chantagem por um pedido não realizado? Ou seria algum tipo de doença mental que acometia aquela pobre jovem?
Quando cheguei ao meu destino me pus aos prantos abraçada à minha irmã que estava de visitas. Ela pensou que eu tivesse sido assaltada ou coisa parecida, e, aos soluços, contei o que eu acabara de presenciar.
Agora, contando a história da louca, penso em suicidas pelo mundo afora. Se Deus nos deu o livre arbítrio, então suicidar-se é uma escolha individual, a qual ninguém deve se intrometer ou impedir, ou não... Eu sou livre e faço da minha vida o que bem entender, inclusive acabar com ela, ou não...
Mas e depois dela, da morte, o que virá? A escuridão para os suicidas? Quem disse?
Seria um covarde aquele que tira a própria vida ou um covarde aquele que não tem coragem de tirá-la?
Para a minha verdade, sei que quero viver. Preferiria viver sem ter que ver pessoas pulando de sacadas, mas se tiver a má sorte de presenciar novamente coisas do tipo, tentarei agir mais rápido com relação ao meu celular no bolso da calça preta.

Ana Maria Basso
( Mal sabia eu...)
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