A Maratona.

Maio 2010.
Descobri o prazer de correr para me exercitar e relaxar.
Quase todos os dias, entre cinco e seis da tarde saio para a Avenida das Cataratas para fazer isso que denomino o meu mais novo hobby, correr. Já corro 8 km sem parar, claro que dando passadas leves, mas que provoca em meu corpo um suor prazeroso, pois, como mulher já chegando na faixa dos cinquenta, nada melhor do que sentir a transformação que esta corrida está fazendo com meu corpo, deixando-o magro e firme.
Toda esta introdução é pra chegar na minha mais nova proeza, correr uma maratona.
Pois é, de moto com meu amor pela cidade outro dia, nos deparamos com um outdoor anunciando a "Meia Maratona das Cataratas" que aconteceria em breve. Fique toda empolgada, afinal eu já corro 8 km sem parar, então 21 km seria só uma questão de treino. Grande engano.
Correr uma maratona, mesmo que seja meia, requer um treino de meses, o que eu não tinha até o acontecimento, mas lá fui eu, continuando com a minha corrida da tarde, só que aumentando o percurso, mas nunca a velocidade. Outro grande engano.
Cinco dias antes da largada saí de viagem a trabalho para São Paulo e Rio, foi uma maratona, mas de visitas a livrarias e lojas de pedras preciosas, o que eu não quero entrar em datalhes nesta crônica.
Cheguei no Sábado a tempo de pegar o Kit do Atleta com camiseta, boné, um chip para ser colocado no tenis para medir o tempo de corrida, um vale jantar no Hotel que patrocinou a Maratona, tudo por R$100,00, com a inscrição inclusa, é claro. No sábado a tarde saí para treinar, sem forçar, para salvar energias para o grande dia que seria o seguinte... e o seguinte chegou bem cedo.
Às 7 horas da manhã meu amor me deixou no local indicado pela organização da prova para a largada.
Havia umas mil pessoas no local, entre mulheres e homens, uns famosos do ramo, outros nem tanto... e eu.
Helicóptero sobrevoando o local nos filmando,  televisão entrevistando os atletas profissionais e os anônimos, e eu, só a observar, solitária em meu shorts verde, camiseta do meu patrocinador, o Brasas English Course, que é minha escola, meu iPod de estimação, meu tenis Nike já surrado, meu chapeu branco de tecido e todo um desejo de completar a Meia Maratona das Cataratas.
Foi dada a largada e saí no meio do pelotão geral. Nossa, que sensação gostosa ver toda aquela gente correndo ao meu lado, na minha frente, atrás de mim, todos correndo, fazendo aquilo que descobri ser uma delícia,  uma brisa batendo de leve no meu rosto, Phil Collins cantando nos meus ouvidos, o transito todo parado, pessoas acenando e torcendo, motos passando com fotógrafos na garupa e eu fazendo pose, correndo e fazendo o V da vitória com os dedos.
Comecei com minhas passadas curtas e regulares, como estava acostumada a fazer nas minhas tardes de relaxamento, mas notei que muitos corredores estavam me ultrapassando, e eu ficando pra traz e pra traz. Resolvi acelerar meu passo e acompanhar um senhor que ia ao meu lado. Pensei comigo," um senhor de uns 70 anos vai ser fácil acompanhar, assim manterei um rítmo."
Havia homens e mulheres atrás de mim e muita gente a minha frente. Veio a primeira descida, a primeira subida, e eu mantive o passo acelerado, para acompanhar o senhor de 70 anos e ficar a frente da turma que vinha atrás de mim.
Mais outra descida e outra subida e começou uma leve garoa. Avistei a placa do km 5. Nossa, como eu já me sentia cansada, mas ordenei ao meu cérebro que se lembrasse das minhas corridas anteriores, da minha corrida até o portão da maior hidrelétrica do mundo, ida e volta, de todo o pouco treino que eu havia feito até então. E ele se lembrou e minhas pernas conseguiram continuar correndo. Avistei o Km 7 e o portão do Parque Nacional já estava perto. Chegar até o Parque era uma questão de honra. Pois cheguei. O senhor de 70 anos parou para ir ao banheiro e eu pensei comigo, "deve ter desistido", e continuei minha corrida já rodeada de árvores, um asfalto precário que fazia de cada passada um esforço maior, a garoa que continuava a cair e me molhar toda, e a espectativa de chegar logo.
Pensei no meu amor que já estava a minha espera lá nas Cataratas. Olhei meu relógio e vi que talvez não conseguisse cumprir a maratona no tempo máximo estipulado, duas horas e trinta minutos, pois ainda estava no km 12, e já corria há quase duas horas. Mais 9 km. Será que consigo?
De repente, o senhor que tinha parado para ir ao banheiro passou a toda por mim. "Mas como?" eu pensei, "onde ele acha tanta energia já a essa altura da corrida?" Os corredores a minha volta já eram bem escassos, uns oito para trás , uns 5 a minha frente, inclusive o senhor de 70 anos que agora usava uma capa de chuvas transparente. Pensei em dar uma caminhada com passadas largas pra descansar, mas se diminuisse ainda mais o rítmo, os oito corredores atrás de mim me ultrapassariam e eu chegaria em último lugar.  Sem chances, em penúltimo, mas não em último! E mantive o passo da corrida, me sentindo muito cansada. Eu não fazia idéia do quanto 21 km era longe pra correr, pra caminhar, longe pra tudo naquela altura do meu cansaço. No km 14 uma mulher que vinha atrás de mim me ultrapassou e a turma que ainda era visível a minha frente sumiu correndo. Minha solidão foi intensa neste momento. Desejei que meu amor viesse me buscar, me tirasse dessa agonia, eu não aguentava mais correr.
Decidi caminhar para descansar, eu precisava descansar se quisesse chegar. Mais dois corredores passaram por mim neste momento. Avistei ao longe mais um posto de água. Pensei em ficar por ali mesmo, de tão cansada, mas como que ligada no automático, voltei a correr, passei pela turma solidária, agarrei um copo de água e continuei minha jornada. Era meu cérebro no comando.
Já não queria ouvir Coldplay que cantava nos meu ouvidos, eu já não queria correr mais, queria estar no aconchego do meu lar, quentinha, tomando um chocolate quente. Queria pegar uma carona até a chegada, eu queria sentar e esperar que viessem me buscar, pois meu corpo já não aguentava mais correr.
Meu corpo não aguentava mais, mas meu cérebo ordenava que minhas pernas continuassem correndo e que logo chegaríamos, cérebro e corpo juntos.
No km 18 fui alcançada por uma mulher de Natal, que já estava correndo sua terceira maratona. Buscamos forças e conversamos pelos próximos 2 km. Ela me disse que veio de Natal com uma turma de três pessoas e que todos estavam correndo a meia maratona, só que já estavam a sua frente. Ela ficara pra trás pois teve que atender ao chamado da natureza. Ela tinha a minha idade. Neste momento um ônibus cheio de turistas passou por nós em direção às cataratas e gritaram para nós: "força!, vocês estão chegando!" Abanei a mão em agradecimento mas meu desejo era outro... queria minha casa! Minha mais nova amiga de Natal continuava ali, do meu lado e a placa do km 20 apareceu. Uma movimentação intensa em frente ao grande hotel a minha esquerda se instalara e a minha direita um cenário deslumbrante apareceu, as Cataratas do Iguaçú. "Estou chegando", pensei. Minha amiga acelerou o passo para chegar em grande estilo e eu fiquei pra trás neste último km. Havia uma derradeira subida a minha frente e a sensação foi de estar escalando o Evereste, não que eu o tenha escalado, mas se lê muito sobre o esforço sobre humano que exige esta escalada. Meus joelhos doiam, meus pés doiam, mas meu cérebro imperava no comando do meu corpo. Escalei o Evereste e lá longe avistei um tapete vermelho, vazio, o cronômetro do relógio abaixo da palavra mais linda do mundo "Chegada"marcava duas horas e cinquenta e nove minutos. Vi quando mudou para três horas, três zero um... e eu continuava correndo. Neste momento procurei pelo meu amor, queria abraçá-lo com meus olhos, queria beijá-lo com meus braços, mas o tapete estava vazio, solitário com eu. Avistei um homem vestido numa capa de chuvas toda branca vindo em minha direção no tapete vermelho com um sorriso lindo nos lábios, um olhar de alívio estampado no rosto e uma máquina fotográfica nas mãos. Era o meu amor! Com toda a ocupação do meu cérebro em fazer meu corpo chegar até a linha de chegada, não reconheci meu amor de longe. Mas ele estava lá, a minha espera, preocupado com minha demora, agoniado com minha ausência no tapete vermelho, mas com o sorriso mais lindo que eu já ví.
Foi pura emoção cruzar a linha de chegada sob o aplauso dos poucos organizadores que ainda se encontravam em seus postos. Pura emoção!
Fiz pose mostrando nos dedos o V da vitória para as fotos que meu amor tirava de mim, uma atrás da outra. Ele ficava repetindo que eu era maluca, perguntando se eu estava bem, dizendo pra eu caminhar mais um pouco para as pernas se acostumarem com o andar, enfim, ele estava ali, pra me amparar, me abraçar, me parabenizar pela proeza de completar a Meia Maratona das Cataratas, 21 km de...  como definir... 21 km de expectativa, de pura superação. Adorei!

                                                                       Ana Maria Basso.
5 comentários

5 comentários

  1. Uau.... adorei saber os detalhes! Que garra!!! Você é demaaais! Parabéns mãe!

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  2. senhorita ana maria basso! meus parabéns, tu é demais mesmo minha ex-sogrinha preferida ahahah!! eu achei que estava abafando correndo meus humildes 10 km e tu simplesmente me atropelou!
    adorei os detalhes da narração também, impressionante!
    are you up p/ a são silvestre um dia?! eu tô dentro! ahaha!
    um bjo grande.

    pipo

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  3. É, você realmente é uma guerreira. Uma corrida dessas é de se respeitar, eu ainda consegui ver os campeões e campeãs em um programa de corrida na ESPN Brasil e olha, não foi pouco não... Esse seu hobby foi aconselhado a mim por meu médico depois da cirurgia, no começo foi difícil (sempre é), mas acostumei e me estou tentando me inspirar em você e quem sabe, um dia correr uma dessas maratonas.
    IMPRESSIONANTE!

    Luis F. Melhorança, Abraços !

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  4. Ana, acabei encontrando seu blog sozinha, viu? rsrs Fiquei muito feliz por conhecer você e sua família! Mais uma vez agradeço pelo carinho com que me receberam. Amei o texto sobre a corrida. É mesmo inspirador! Bjs.

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  5. Amiga!!
    Me comovi, às lágrimas, lendo seu relato.
    Vc é surpreendente!! Qto orgulho eu sinto de vc!!! (assim como, certamente, todas as pessoas que tm o privilégio de desfrutar do teu convívio).

    Grande bj
    Fica com Deus

    Lais

    (ah... vou tentar seguir seus "passos"!!)

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